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Sei que dia desses o Bernardo me emprestou a fita do documentário Live! Tonight! Sold out!!, da turnê que o Nirvana fez em 1993, com algumas explicações sobre como chegaram até ali e tal… Ah, sim! Eu disse fita. FITA. VHS. Lembra? Pois é… Descobri que já rola uma versão em DVD. Descobri também que meu videocassete ainda funciona. Faz assim: se você tiver menos de 20 anos, clique aqui e aqui também.

Fita VHS. Lembra?

Fita VHS. Lembra?

Bom, não vou comentar o vídeo inteiro, mas apenas um trecho emblemático (lembrei dos professores da faculdade agora). Para saber como foi o show, apresentado por João Gordo, veja o blog Search & Destroy, do Eric Paranoid. O trecho que eu quero comentar é narrado assim pelo Eric:

[Durante a música Scentless Apprentice] Kurt faz seu show particular. Pega um abacaxi (de onde ele veio eu não sei) e o esmagou na guitarra. Depois desce da parte superior do palco e tenta tirar umas armações esquisitas que estavam ali. Como não conseguiu, se dirige as câmeras da Globo, quando faz uma dança esquisita para elas, além de cuspir nelas e simular uma masturbação. (…)

Foi uma apresentação única do Nirvana, longe de ser profissional, mas com um senso de atitude que faz falta hoje em dia. O boato era que Kurt estava tão drogado que mal conseguia ficar em pé. Depois foi dito que, quando a banda ficou sabendo que o festival era patrocinado por uma grande companhia de cigarros e que seria transmitido pela maior rede de tv do país, os caras não gostaram nada e resolveram fazer aquele show atípico.

Kurt simula masturbação para câmera da Globo

Kurt simula masturbação para câmera da Globo

Desnecessário e redundante falar sobre a falta de atitude numa época em que é preciso engolir que o NX Zero foi aclamado por voto popular “a melhor banda do ano”, num relevante prêmio musical, título entregue já várias vezes para Pitty. Eu até gosto da Pitty, mas… “banda do ano” é dose! Vale ressaltar que a falta de atitude está nas bandas e no público, em doses iguais. Tipo: o público do NX Zero tem tanta atitude quanto a banda em si; assim como o público dos Stooges tem tanta atitude quanto Iggy Pop e os irmãos Asheton.

Mas, voltando ao assunto, o que chama atenção, mesmo, é o fato de a transmissão não ter sido interrompida imediatamente. Ou, então, a TV Globo ficar mostrando imagens da platéia ou do Krist e do Dave tocando. Mostraram toda a isolência do Kurt. Ali estávamos em 1993, a apenas oito anos do fim oficial da ditadura militar, que tinha aquela coisa toda de censura. Hoje, até mesmo um show messiânico do U2 é transmitido com delay. Vai que o Bono resolve fazer bundalelê pelas criancinhas pobres da etiópia, né? Dá tempo de cortar!

Kurt manda o som

Kurt manda o som

O pior é que seria mole demonizar a Globo por este tipo de censura, mas, na real, duvido muito que, pelo menos na maior parte dos casos, a idéia de censurar parta do comando no Jardim Botânico. Na verdade, deve partir do departamento jurídico. Pelo que sei, este tipo de coisa ainda não acontece nos telejornais ao vivo. Eu disse ainda, porque nos EUA, é comum as emissoras grandes, como CNN, MSNBC, ABC, Fox e CBS usarem roteiros pré-definidos para as entrevistas “ao vivo”. Mesmo assim, as entrevistas dificilmente ocorrem “ao vivo”. Normalmente rola um delay, um atraso de alguns segundos, para se o entrevistado falar algo fora do roteiro, a emissora cortar a transmissão a tempo.

Parece antagônico, mas a censura só acontece por causa do fortalecimento daquilo que convencionamos chamar democracia. É que uma pessoa pode se sentir ofendida pela transmissão e processar o canal de TV. E isso, em si, é antidemocrático, porque limita muito os direitos de liberdade de expressão e de informação, garantidos pela nossa esquizofrênica Constituição. Por enquanto, a internet me parece bem mais democrática. Talvez daqui a três ou quatro anos já não seja, mas a gente sempre arranja um jeito de driblar essa bobagem de censura. Por falar nisso, segue o vídeo do Nirvana no Hollywood Rock de 1993: