Foi melhor queimar de uma vez do que apagar aos poucos?

Publicado: 5/abril/2009 em Rock
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Há 15 anos, morria Kurt Cobain, vocalista, líder e fundador da banda norte-americana Nirvana. A versão oficial diz que ele se suicidou com um tiro na cabeça após ingerir uma dose absurda de heroína. Seu corpo foi encontrado apenas alguns dias depois. A quantidade da droga era tanta que teorias conspiratórias pipocaram aos montes após a morte do cantor. A mais conhecida – imortalizada no filme Kurt and Courtney (1998) diz que sua esposa, Courtney Love, teria mandado matá-lo.

 Mas o que podemos refletir, agora com um pouco mais de afastamento, sobre o que representou de fato Cobain e o Nirvana na curta história do rock?

Kurt é talvez a última estrela do rock na concepção “tradicional” do termo. Ele viveu rápido, morreu jovem, deixou uma obra relevante – cujos discos entram em qualquer lista decente de melhores álbuns do século – e conta com inclusive com teorias conspiratórias no melhor estilo Elvis e Jim Morrison (Será que ele estaria numa ilha paradisíaca jogando xadrez com os dois?).

 Duas questões que sempre permearam sua vida e carreira foram o sucesso e a mídia. De acordo com a biografia Heavier than Heaven (2001), Cobain foi um loser, um fracassado total durante a adolescência: teve problemas familiares, não se dava bem nos estudos, vivia de bicos e de drogas. Era o geek, o estranho o bizarro, o rejeitado pelas mulheres, pela sociedade. A música foi a forma que encontrou para expressar suas ansiedades e conseguiu através dela chegar ao sucesso. Pelo menos é isso que foi gerado a partir do mito Kurt Cobain.

 A banda começou tocando no circuito underground, mas rapidamente alcançando proporções inesperadas, tornando-se o maior grupo pop do mundo no inicio dos anos 90 ao desbancar Guns N´Roses  e Michael Jackson.  Entrava aí um conflito clássico do rock: pop x underground. “Ele se vendeu”, apontavam alguns fãs antigos.

Kurt , no entanto, sempre sonhou com o sucesso. Parece, diferente do que dizia em entrevistas, que ele o queria, o almejava, mas talvez sua idealização nada tinha haver com a forma devastadora como a mídia trata seus ídolos: primeiro joga-se ao patamar mais alto, para depois  tirar-lhes tudo. Talvez ele não soubesse que seria um prisioneiro da mídia e do modismo. Ele chegou a dizer, em várias ocasiões, que os novos fãs não o entendiam, os fãs conquistados com o segundo álbum da banda, Nevermind (1991). Foi esse disco que os consagrou, mas também foi ele que se tornou o paradoxo do qual Cobain buscou fugir posteriormente.  Chegou a dizer algumas vezes que seu sonho era apenas ser um guitarrista escondido no fundo do palco e não o frontman da maior banda do planeta. Verdade ou mentira?  A contradição era talvez sua característica mais marcante. De acordo com a biografia sobre o cantor, desde jovem ele ensaiava entrevistas e desde sempre elaborava a criação de seu próprio mito. E, talvez (mais uma vez) foi por isso que morreu; era preciso morrer para que o mito vivesse.

Do ponto de vista comercial deu certo. Ele é hoje uma das celebridades mortas que mais rendem no mundo. Ele também não teve tempo de estragar sua discografia com discos duvidosos como diversas bandas fizeram.

Ele manteve a imagem rebelde e jovem, que é a combinação perfeita da iconografia  e do elixir da juventude da cultura rock n´roll. E talvez tenha sido o último da lista que inclui Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Sid Vicious e Jim Morrison, mas será que foi melhor queimar de uma vez do que apagar aos poucos? Ou seria melhor ele ter abandonado tudo e virado um novo Johnny Cash – se apresentando solitário com um violão – como tantas vezes disse que faria?

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comentários
  1. Cler Oliveira disse:

    Excelente texto. Como fã de Nirvana há…sei lá… uns 18, 19 anos é sorriso certo encontrar bons textos sobre o cara.

    Sei que a última pergunta do texto é retórica, mas poderia ser respondida com um trecho de um clássico – pasme – da Bon Jovi:

    “Don’t you know that all my heroes died? And I guess I’d rather die than fade away”

    Essa é a jogada. Concordo com ambos pois dizem a mesma coisa. Foi um direito de escolha. O suicídio pode significar a busca freak de uma dignidade que, pessoalmente, ele não julgava ter.

    Eu não consigo imaginar Cobain numa vibe Cash. Mas infelizmente sao coisas que jamais vamos saber. A lenda será sempre maior. E é isso que importa para esse tal de roqueenrol.

  2. […] Foi melhor queimar de uma do que apagar aos poucos? No Lixeira do Pop (sempre eles) um ótimo texto que traz justamente a reflexão da transição de loser a mito do rock pela qual Kurt Cobain passou, levando em conta a sua adolescência problemática até a repercussão de sua música após o seu desaparecimento. Vale muito a pena dedicar uns cinco minutos à leitura. […]

  3. Natalia Weber disse:

    ótimo texto! acho que todo mundo sabe que a frase do Neil Young estava no “bilhete suicida” do Kurt, né? (coloco aspas pq… sei lá! rss sabe-se lá o que realmente aconteceu. Principalmente dp que eu vi “Kurt & Courtney”, vc termina o filme acreditando fielmente que a Courtney mandou matar o cara mesmo). Mais um que morreu aos 27, mais um sem saber como lidar com a mídia absurda (que ainda hoje massacra mta gente), sua obra foi maravilhosa, mas que me deixa muito triste…

  4. Maurício Ramos disse:

    Excelente texto. Talvez por isso que o Kurt ainda seja um dos maiores mitos da música, a voz dos rejeitados , o som dos sujos. Ele dizia e fazia o que muitos queriam mas não tinham o poder para fazer.

    Parabéns!

  5. Victor disse:

    Belíssimo texto, Bap!

    O Kurt sempre me pareceu ser daqueles caras que você pode esperar tudo: se emputecia e zoava um festival patrocinado por uma empresa de cigarro e gravava um lindo e comercialíssimo acústico para a MTV. Pode ser encarado como um comportamento paradoxal, mas na verdade são coisas que se equilibram. Um protesto underground aqui, uma apresentação pop ali.

    Claro que ele tendia mais pra um lado, já que não existe equilíbrio perfeito, mas para qual lado a gente nunca vai saber.

    De fato, ele não teve tempo de estragar a carreira. Outra banda que nunca decepcionou é o Foo Fighters. E isso me faz pensar que provavelmente o Nirvana estaria mandando muito bem até hoje. Não seria tipo Chris Cornell e Scott Weiland, que só têm dado bola fora.

    Mas também é outra coisa que nunca saberemos. Como suposição não é muito meu forte, prefiro não arriscar.

    E, pô, vão querer me matar, mas eu acredito na inocência da Courtney. Mas acredito mais na música dela do que na inocência. 😉

  6. […] foi um dos grandes gênios do nosso tempo. Admiro-o por diversas razões e uma delas foi ter optado queimar a se apagar aos poucos. Alias, esse era o fator que me incentivou colocar na “lista dos filmes para assistir antes de […]

  7. pacíficador disse:

    é …q pena q a mídia traga isso para os gênios da música.Saudades kurt.

  8. Bruno Gryllo disse:

    texto bellissimo, muito legal.
    espero e desejo que, Kurt e o Nirvana seja sempre lembrado como a ” A BANDA QUE REVOLUCIONOU O ROCK”.

  9. Sami disse:

    Bom texto, imparcial e devoto.
    Pelo que li sobre Kurt, sua trajetoria de vida, sendo pisciano (assim como eu, mas foda-se né, afinal, quem sou eu??)rsrs
    O cara era sensível, deve sim ter deslumbrado o sonho de virar um astro do Rock tal qual seus idolos na juventude… normal… O cara tinha talento pra isso e no fundo ele sabia.
    Acho somente que o sucesso alcançado por ele não era exatamente como ele tinha idealisado. O bichinho cresceu sendo um “rejeitado”, como poderia lidar com a fama avassaladora e selvagem?
    De repente aquele excesso de atenção! Bizarro.. pense… rs
    Nem ele pensou chegar tão longe. O comportamento de “gênio rebelde”, que a midia julgou pra poder vender, nada mais era do que a autenticidade do cara. Ele não queria ser referencia nem influenciar o mundo.. só queria cantar, tocar e ponto. O vandalismo final nos shows era apenas uma forma de dizer que acabou, de repente até pra ele mesmo! Percebo nos videos que ele não era dos mais carismaticos no palco, seu introsamento comm o publico era superficial. O olhar vago, olhar de cego, pro nada… do inicio ao fim. Ele mesmo dizia preferir tocar em clubes pequenos. Pra mim, ele foi mais um incompreendido em busca da felicidade. De certa forma, depois de ter alcançado aquilo tudo, ele ainda se sentia infeliz e daí a frustração. Acho que ele seria capaz de se matar sim, não pra imortalisar o “mito”, mas por depressão mesmo. Pra uma pessoa depressiva, a abstinencia da droga, sendo ele um viciado, agrava ainda mais essa “doença”. Mas toda a perícia levantada sobre o caso também não excluem a possibilidade de um suposto assassinato envolvendo a esposa. Enfim… vai saber né… (só sei que eu gostaria de ter um pedaço da guitarra dele) rsrs
    As pessoas tinham que aprender a cultuar seus idolos. O estilo de vida dele não era o mais certo, quem quer ser um viciado depressivo com “insatisfação crônica”???
    O cara era talentoso, escrevia, tocava e cantava! (porra… FODA) E sem querer, inovouo o mundo do rock! (cool)
    As letras fortes, intensas.. rítmo contagioso. Isso que eu admiro nele.
    (além dele ser um gato vai, tenho que admitir e o jeitinho rebelde é encantador rsrs)
    A sensação que eu tenho, é que ele não era o “idolo inalcansável”.. utópico.. ´seilá
    Ele não mandava o “tira o pé do chão Salvador(tipo Ivete)” nem “Vamo fazê barulho porra(do D2)”
    mas de alguma maneira ele dizia, “eu sou como vcs, de carne e osso”.
    Em todas as fotos dele, só consigo ver uma criança que quer dormir entre os pais na cama.
    Como sendo uma pessoa extremamente carente e não imatura.
    # pronto falei!! (uau e como!) rsrs

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